
O Despertar nasce da necessidade de pensar a arte como um processo contínuo de experimentação e reflexão, transcendendo a mera execução artística e inserindo-se num campo mais vasto de interseções entre memória, identidade e território. Desde a sua conceção, o programa tem-se estruturado como um espaço de criação que opera a partir das memórias individuais e coletivas, revisitando-as, reinterpretando-as e convertendo-as em matéria-prima para novas experiências estéticas e discursivas.
Cada edição do Despertar estabelece um novo eixo temático e metodológico, ancorando-se na premissa de que a arte é um fenómeno dinâmico, sujeito a mutações contextuais e subjetivas. A cada ciclo, são trabalhadas novas perspetivas, ativadas outras camadas de memória e projetados objetivos distintos, garantindo que o programa se reinvente continuamente, mantendo-se fiel à sua essência inovadora e original.
O programa estrutura-se como um campo expandido da criação artística, onde os limites convencionais entre disciplinas, práticas e linguagens são dissolvidos para permitir o surgimento de diálogos transversais e interações inesperadas. A arte, enquanto dispositivo epistemológico e sensível, torna-se um vetor para a construção de novos olhares sobre os espaços e as comunidades que os habitam, fomentando uma relação simbiótica entre o ato criativo e a experiência vivida.
No decorrer da sua primeira edição, o programa testemunhou a potência transformadora da arte na configuração de novas formas de pertença e coesão social. Se, por um lado, o programa atua como um espaço de acolhimento para artistas, proporcionando-lhes um território fértil para a experimentação e a investigação, por outro, promove a participação ativa da comunidade, instigando-a a ocupar um papel central na construção de um discurso artístico plural e partilhado.
Despertar propõe-se, assim, como um dispositivo de mediação cultural, catalisando interações entre os criadores e os contextos em que se inserem. Os artistas participantes, sejam convidados ou selecionados por convocatória aberta, são instigados a envolver-se profundamente com o espaço e a comunidade, produzindo trabalhos que não se limitem a um processo autorreferencial, mas que incorporem o ambiente, os acontecimentos e as narrativas que ali residem. Qualquer espaço de memória torna-se um território de pesquisa e criação, uma ponte entre o passado e o presente, entre o individual e o coletivo.
Enquanto iniciativa da Associação PYRA propõe-se ultrapassar as barreiras convencionais do usufruto cultural na cidade de Lisboa, promovendo um diálogo de multiplicidade e transversalidade. O objetivo não é apenas oferecer um espaço físico para a realização de projetos artísticos, mas sim construir uma plataforma de imersão e troca, onde cada projeto se torne permeável ao meio, absorvendo as especificidades da comunidade e refletindo sobre as dinâmicas sociais, culturais e geográficas que o circundam.
Neste contexto, a experimentação e o cruzamento de disciplinas emergem como princípios fundamentais, permitindo que o teatro, a performance e outras linguagens artísticas se contaminem mutuamente, originando novas possibilidades de criação.
A cada edição do programa Despertar, a experiência culminará em apresentações finais e exposições gratuitas, nas quais o público tem a oportunidade de entrar em contacto com o resultado das residências, não como meros espectadores, mas como participantes ativos de um processo que se pretende coletivo, contínuo e em constante transformação.